quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A noite agreste

Aquela era uma tarde tão comum como qualquer outra na cidade de Blumenau. Mesmo estando na fria estação de novembro, uma pesada chuva de fim de tarde havia sobressaltado a cidade. No bairro do centro, principal bairro da cidade onde estavam as principais lojas e shoppings, havia uma grande circulação de pessoas, como era costume naquela hora da tarde. Assim que a água começou a cair com a força de um furacão, muitas das pessoas tinham se refugiado dentro de lojas, ou embaixo de tendas, devido ao fato de morarem longe, e necessitarem nada mais de três ônibus para chegarem em casa. Depois de duas horas de total aguaceiro, a chuva hesitou um pouco, e a grande maioria das pessoas partiu de volta para o aconchego de seus lares, deixando o centro com um ar isolado e abandonado.
Por volta das seis horas da noite, quando o sol já dava sinais de querer se recolher, a chuva voltou com o auxilio de trovoes e relâmpagos reluzentes e estrondosos, que davam a impressão de racharem o solo calçado com lajotinhas coloridas. Essas lajotinhas eram muito intrigantes, pois sua disposição parecia não fazer o maior sentido. Eram tortas, e suas cores eram aleatórias, embora aqui e ali se ouviam boatos de que seu desenho tinha os contornos dos mais importantes predios da cidade.
Ao que as maiores parte das lojas e centros de lazer começaram a encerrar seu expediente, a chuva parou, e desta vez, definitivamente. As ruas estavam desertas, e a noite já havia caído completamente, mas entre a paisagem desolada da mais movimentada rua da cidade, um rapaz andava completamente sozinho, com um ar de completo desamparo. Tinha as mãos nos bolsos, com os polegares para fora, e andava de cabeça baixa, chutando plástico e embalagens de comida. Estava caminhando rumo a uma lanchonete na rua próxima, a que tinha certeza que permanecia aberta, mas ele não sabia o pq.
Era um adolescente muito estranho e tinha um jeito insólito para alguém de sua idade. Parecia perturbado e cheio de preocupações, o que era normal na conturbada faze da adolescência. Usava jeans com a bainha rasgada, e um casaco que aparentemente fora vermelho no dia de sua compra, mas que já começava a assumir um tom rosa. Seus cabelos eram despenteados e espessos, muito molhado por causa da chuva que apanhara pouco tempo atrás. Sem duvida estava nervoso, e parecia não saber muito bem o que estava fazendo. Contudo, tinha experiência em vagar sozinho pelos lugares mais incomuns durante a noite, de modo que uma noite no centro não o preocuparia.
Ao virar a curva para a rua sete de setembro, onde ficava o mais importante shopping da cidade, viu que acertara a sua previsão: o bar estava aberto. Era um bar muito estreito, com uma maquina de refrigerantes na entrada, e duas mesas para lanche. Ele se sentou em uma delas e sacudiu a água dos cabelos. Somente depois de alguns minutos percebeu que o dono da lanchonete o observava, ao mesmo tempo em que secava copos com um pano feito de muitos remendos coloridos, e que tinha um olhar de censura para o rapaz. Ao perceber que o homem desaprovava sua mera presença na lanchonete, perguntou de forma muito direta para o garoto
- Vai querer algo para comer, ou para beber?
_ ...Aa...-vacilou o garoto, ainda sacudindo água dos cabelos, e molhando o chão. Entendeu q o dono do bar não esperava sua companhia, a não ser que ele fosse lhe render algum lucro, o que achou uma grande falta de solidariedade. Mas então percebeu que seu estomago pedia comida - Ha vou sim. Humm. Pode ser esta esfirra de queijo, por favor.
-são dois e cinqüenta
-a, pois não - ele catou algumas moedas que lhe tinham sobrado de troco e entregou ao homem, ao mesmo tempo em que este esquentava a esfirra num forno no canto do bar.
-vou fechar o bar daqui a pouco, então faça o favor de comer em um tempo preferencialmente curto-disse o homem secamente por trás do balcão.
- Ha sim pode deixar. - respondeu o garoto.
Ao receber sua esfirra, fez seu lanche rápida e silenciosamente. O relógio encima do balcão lhe dizia que já se passava de nove horas da noite.
- Você não parece ter mais de quinze anos - falou o homem com um ar de desaprovação - me pergunto o que estaria fazendo um jovem como você nesse lugar nessas horas tardias.-
O garoto achou que o homem estava sendo muito obtuso perguntando algo que não lhe importava nem um pouco, mas também se lembrou de que um jovem de dezessete anos, certamente com uma mãe preocupada o esperando em casa, vagando solitário pelas ruas desertas do centro por àquela hora seria realmente estranho.
- E o senhor que deixa seu estabelecimento aberto ate essas horas com o constante perigo de que algum assaltante possa aparecer a qualquer momento - perguntou ele, mais querendo fugir da pergunta anterior.
- A nunca sofri nenhum tipo de assalto, e tenho mais segurança do que qualquer outra lanchonete do centro.- disse ele em tom de indiferença - mas também porque tenho a certeza, a até hoje raramente me enganei, de que ha sempre alguém a procurar um lanche aberto, mesmo nas horas mais exóticas. - concluiu ele. O garoto não entendeu o que ele queria dizer com “mais segurança do que qualquer outra lanchonete do centro", e continuou a achar arriscado a idéia de ter um estabelecimento aberto há essa hora. Mas não se espantou, pois já sabia que justamente aquela lanchonete estaria aberta mesmo nas horas mais estranhas.
- bom isso eu concordo, pois muitas pessoas que conheço já me disseram que esta lanchonete estaria aberta mesmo a noite, de modo que me dirigi premeditadamente para cá. - disse o garoto ao homem, no momento em que se levantava para tomar seu rumo. - Bom, vejo que o senhor esta muito ansioso para fechar seu bar, então vou me retirar. Boa noite
- Boa noite - cumprimentou o homem, contornando o balcão e se dirigindo a porta - e já sabe: quando a noite cair, você já sabe onde pode ir. - ele deu uma piscadela cordial e indicou o garoto a rua. o garoto pegou sua mochila rota e suja e saiu fazendo um aceno com a cabeça. Apos dar alguns passos, ouviu um resmungo do homem do bar “marginal! Vai acabar se dando muito mal isso sim". O garoto meramente soltou uma risada e se dirigiu na mesma rota que usara para ir ate o bar.
Havia algo muito anormal naquela noite no Centro, com suas muitas lojas e bares fechados. Apesar disso ser completamente normal, uma estranha sensação de medo tocou o peito do rapaz. Ele acelerou o passo, atravessando a rua e passando em frente de uma das mais freqüentadas lojas de roupas juvenis da cidade. Sentia-se cansado, devido ao fato de estar desde a manha fora e casa. Tinha saído do colégio, que ficava a pouca distancia de onde estava agora, e não fora ate em casa desde então. Mesmo assim não abrandou o passo.
Nunca tinha sentido tal sensação, como se estivesse sendo perseguido, ou como estivesse perto de um feito tenebroso. Tinha que subir praticamente a rua XV inteira ate chegar ao seu ponto de ônibus. Inconscientemente, olhava para trás ha intervalos pequenos de tempo, e um filete de suor já escorria pelo seu rosto. Por um momento, enquanto passava adiante de uma grande farmácia, tranquilizou-se, lembrando a si mesmo de que já havia vagado sozinho por escuridões muito piores do que aquela e nunca nada lhe acontecera.
Continuo a caminhar, com a idéia de que dificilmente lhe aconteceria algo de mal, quando um berro de arrepiar os cabelos cortou o silencio da noite ate então imaculado. Ele parou de andar abruptamente, e olhou desesperado para trás, seu coração batia a mil por hora. Pregado no chão devido ao susto, ele ouviu passos de pessoas que corriam desesperadas no outro lado da grande farmácia que havia passado a pouco. A farmácia ficava na esquina de uma transversal da rua XV, que dava para rua Beira Rio.
Ao que os passos foram se aproximando, um outro berro feriu outra vez o silencio noturno, e desta vez o rapaz distinguiu as palavras “eles têm uma arma!". O rapaz entrou em pânico, e recuou contra a tenda escura de uma das lojas, de modo a tornar-se invisível, com o coração acelerado e os olhos arregalados de desespero, afinal, havia uma arma de fogo no meio da historia, a qualquer momento um tiro cortaria o ar frio da noite e derramaria sangue de alguma pessoa.
Então, de onde estava abaixado, ele pode ouvir, o tiro dissonante, e o grito de dor de uma das pessoas que corriam. Outras pessoas gritaram, e logo, de onde estava escondido, ele pode ver duas pessoas emergirem correndo da rua que ele acabara de deixar para trás, desesperadas. De repente, uma delas caiu no chão coberto de belas lajotas coloridas com um baque feio, e o rapaz notou um som seco, que deveria ser seu nariz se partindo sob o peso de seu corpo. A outra olhou para trás, mas quando pensou em ajudar, outro tiro soou, e atingiu-a na cabeça, fazendo ela voar para trás e cair de borco no chão sujo da rua XV. Com um esforço que pareceu desumano, a pessoa que caíra se levantara e saíra correndo na direção em que estava o rapaz, com a mão cobrindo o nariz desfigurado. Nesse momento, outras quatro figuras, cobertas de capuzes negros, emergiram da mesma rua logo atrás. Apontaram para a mulher que corria em direção ao rapaz escondido e puxaram o gatilho, atingindo-a na altura do estomago. Ela caiu com as pernas e braços abertos no chão, mas não estava morta. Rastejou-se um pouco, e já estava perto do rapaz que se encolhia aterrorizado contra o canto da parede, quando as quatro figuras pretas se aproximaram lentamente do ser agonizante que lutava por sua vida no chão imundo da cidade.
- Bem - disse um deles, baixando o capuz, embora o rapaz não pode e nem quis distinguir seu rosto - Aqui esta uma cena de que certamente você nunca teria imaginado, não é Verônica? - Ele deu uma gargalhada cruel à medida que se aproximava sorrateira e vagarosamente ate a figura que se arrastava diante de seus pés. - Você, que em tantas ocasiões nos humilhou e nos fez passar pelas mais sórdidas e ridículas situações.
Mas a moça parecia ter notado a presença do rapaz no canto escuro da parede, e ele ficou com medo de que ela acabasse o denunciando. Mas ela parecia não fazer isso, e tentou ficar em pe, mas caiu pesadamente no chão, soluçando e sangrando muito pelo nariz quebrado e pelo tiro que levara na barriga.O homem que havia falado antes, e que parecia ser o líder dos quatro, gargalhou novamente, levando as mãos ate a barriga e chegando logo acima da moça soluçante - VC - repetiu ele baixando o rosto numa expressão de cólera - e seus amigos medíocres e detestáveis, que abusaram da nossa pobreza e da nossa precariedade, se achando superiores apenas porque tem mais dinheiro...
- VC ENTENDEU TD ERRADO SIMAO!!! - Gritou a mulher virando-se num esforço descomunal, ainda tentando inutilmente se levantar - você não sabe, você entendeu tudo errado! Por favor,...
- EU SEI MUITO MAIS SOBRE VC E SEUS AMIGOS ORDINARIOS DO QUE VC PENSA!! - e ele correu e deu um pontapé no nariz já mutilado da mulher. Ela voou mais alguns metros, caindo agora muito perto de rapaz, embora os quatro homens de capuz não pareciam ter notado uma sexta presença no local. - E AGORA VC VAI PAGAR MUITO CARO POR TUDO QUE VC FEZ!- A mulher se mexeu no chão, mas caiu, em cima de uma poça formada por seu próprio sangue, espirrando o liquido vermelho no chão.
Os quatros homens adiantaram-se para a mulher, e o rapaz presenciou de camarote naquele momento a cena mais terrível, mais cruel e mais sangrenta de sua vida, e olha que ele já havia visto muitas coisas com seus meros quinze anos. O líder do bando pisou com força na mão direita da mulher, emitindo um ruído de osso se partindo, e a mulher soltou um terrível gemido de agonia, com sua boca babando em cima de uma poça de sangue e de lagrimas de dor - Os outros quatro homens também vieram e eles começara a comprimir cada centímetro do corpo da mulher contra as lajotas duras e ásperas. O garoto tapou a boca, e as lagrimas começaram a escorrer de seus olhos desesperados. A cada pisada, a mulher soltava uma exclamação sufocada da insuportável sensação de estar sendo quebrada aos pouquinhos, parte por parte de seu corpo, e esse gemido foi ficando mais fraco a cada pisada, até que desapareceu completamente. Os homens deram distancia, e ela ficou tremendo e arquejando descontroladamente no chão, completamente desfigurada.
Um dos homens apontou a arma para a cabeça dela com um sorriso cruel, mas o líder abaixou a arma e fez sinal para que ele observasse. A mulher parara de tremer, e sua respiração começou a enfraquecer. Ate que num último gesto, ela ergueu o braço rasgado e mutilado, sacudiu-o uma vez em direção ao rapaz e deixou-o cair de novo, no que sua respiração desapareceu por completo, e apenas restou seu corpo mutilado sem vida, um símbolo da crueldade e da violência.
Aparentemente, ela tentara fazer sinal em direção ao rapaz, que agora sentia muitas lagrimas arderem no seu rosto, e seu coração mais disparado do que nunca. Mas nenhum dos homens compreendera o que o gesto significara, e deram as costas, silenciosos. O rapaz não conseguia pensar direito, e a única coisa que desejava nesse momento era sair dali o mais rápido possível.
Na pressa, ele se levantou apoiado no muro, e virou-se. Os homens ainda estavam muito perto, mas ele tinha a certeza interior de que não o escutariam, não podiam escuta-lo de jeito nenhum...Virou-se e começou a correr. Mas ao sair apressadamente, ele acabara esquecendo sua mochila jogada no chão, seus pés encontraram uma de suas alças, fazendo o rapaz cair com um baque sonoro no chão repleto de papeis e sujeira, e sentiu seu dente partir, e o gosto de sangue em sua boca.
- O que? - esbravejou o líder, virando-se abruptamente. Viu o rapaz que tentava correr desajeitado e riu. - olhem pessoal, tínhamos um convidado a mais presenciando a cena. - ele puxou sua pistola do bolso da capa, e apontou para o rapaz - ruim pra ele, não e mesmo?
Ao som do disparo do revolver, o quarto corpo sem vida rolou pelo chão, fazendo mais sangue escorrer da carne perfurada, no chão ta caprichosamente montado com lajotinhas coloridas, naquela simples noite fria, desolada e agreste.


{andre}

Um comentário:

  1. Pra mim, esse foi o melhor dos três.

    Mãe e filho ficou massa, mas como essa história se passou em Blumenau cria-se uma ligação com o leitor, uma aproximação.

    Por isso, a valorização de detalhes - como nome de lojas e ruas - deu um toque especial a narrativa.

    Já estou aguardando o 'Noite agreste II'!

    by {joão}

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