O desespero dos homens (parte I)
O silencio daquela noite era quebrado apenas pelo andar atravancado e andrajoso da estranha figura de um homem baixo. Andava meio curvado, e mancava a cada passo, como se tivesse sofrido um grave ferimento na perna. No entanto, a cada passo que dava, aumentava a velocidade, como se estivesse ansioso para chegar logo em algum lugar. Seu rosto estava oculto no sombra da noite, e alem da cartola de cetim brilhante encarrapitada em sua cabeça, era visivel ainda a silhueta de um cachimbo pendurado em seus labios, de onde saia varias baforadas de fumaça densa e esverdeada. Suas longas botas de couro rangiam por sobre o chao da floresta, e o longo sobretudo preto de couro arrastava no chao levando folhas e gravetos por onde ele passava. As arvores nodosas iam ficando cada vez mais fechadas, dificultando a passagem do homem, mas mesmo assim ele nao abrandou o passo. Tinha uma agilidade incomum para se desviar das arvores que apareciam do nada em sua frente, parecendo fazer de proposito para impedilo de passar.
Caminhou assim por mais de meia hora, e entao parou e ficou a escutar a propria respiraçao. De uns dos muitos bolsos de seu casaco, tirou um objeto redondo que emitia uma intensa luz azul, e se demorou a olha-lo. O objeto na verdade era um pesado relogio de ouro, com uma corrente tao grande que parte dela continuou dentro da roupa do homem.
- Esta quase na hora - murmurou para si mesmo. Guardou o relogio no bolso, deu um longo e profundo suspiro e continuou sua caminhada. Dez minutos mais terde, o homem parou no meio da floresta novamente. Havia uma clareira logo adiante, e um vulto escurecido estava ajoelhado no chao. Ele contemplou pesaroso a cena, deu uma baforada no cachimbo e chegou perto do homem.
- Boa noite, Eclésio. - disse ele calmamente, descançando as maos no bolso e tragando fortemente. tirou novamente o relogio do bolso e o consultou. - vejo que cheguei na hora. A quanto tempo esta aqui?
O homem no chao nada respondeu. Arfava furiosamente, como se tivesse corrido por uma longa distancia. Longos cabelos negros empapados de sangue balançavam molemente de sua cabeça abaixada, e havia profundos cortes e ferimentos em seus braços e peito desnudos. O homem de cartola pareceu indiferente, e fungou seu cachimbo olhando distraidamente ao redor.
- Vejo que nao conseguiu terminar a viagem. Vergonhoso. Voce prometeu a elas e nao cumpriu sua palavra. Voce - disse ele em tom superior. - nao é um homem honrado.
O homem no chao continuou calado. Grossas lagrimas caiam de seus olhos, e ele tremia descontroladamente. O outro continuava a mostrar indiferença ao estado de Eclésio, e agia como se estivessem conversando amigavelmente enquanto tomavam um drink. Passado algum tempo, o homem no chao ergueu a cabeça. Seu rosto cavernoso e encovado estava sujo de lama e sangue. Os um dos olhos estavam inchados, e havia arranhoes profundos. Seus labios estavam ensanguentados, e um filete de sangue escorria por ele. Com dificuldade, ele tentou falar.
- Melvin... foram... eles...eles... - disse quase sussurrando. Perdera dois ou tres dentes. Melvin ficou quieto. Eclesio apoiou as duas maos no chao e cuspiu uma golfada de sangue no capim baixo. Tentou erguer a cabeça novamente, mas nao conseguiu, e se dirigiu a Melvin ainda de cabeça baixa. - Eles me atacaram... eram muitos, mais de dez... Melvim, voce disse, voce prometeu...
-Eu nao posso impedi-los de vir, e voce sabe muito bem. - disse melvim, contemplando distraidamente um carvalho avantajado em sua frente. - Voce estava ciente disso Eclesio, quando aceitou a minha condiçao. Lembra o que eu disse a voce? Eu disse permitiria que voce tentasse trazer de volta sua mulher e suas filhas, em troca de um retorno, é claro. E disse tambem que a viajem era perigosa, e que o caminho era traiçoeiro, e que tudo que acontecesse ficaria por sua conta e risco.
- Eu tenho de continuar... nao posso deixa-las...Melvin, por favor...
Melvin, tirou no cachimbo da boca, virou e encarou Eclesio com um olhar de desprezo.
- Voce esta morto, Eclesio. Nao consegue nem ficar em pe. Mas isso nao é ruim nao. Afinal de contas, voce finalmente ira se reencontrar com elas agora. - ele deu uma risada cavernosa, mostrando dentes amarelados e irregulares. - Tente entender. Nao a como superar a morte. Elas se foram, é assim que funciona. Voce deve deixa-las partir, é isso que deve fazer. Ninguem, até hoje ninguem conseguiu completar o caminho que voce tentou traçar, pois é o caminho que separa os dois mundos, o mundo da vida e o mundo da morte, e o unico meio de atravessa-lo, meu caro, é simplesmente - sua voz baixou até um sussurro - morrendo.
- Melvin, seu...- o homem tentou engatinhar pela lama, mas seus braços cederam, e ele caiu de boca no chao lamacento, arfando mais do que nunca.
Melvin contemplou a figura agonizante por um momento. Entao se aproximou, e tirou de dentro das vestes um pequeno cajado prateado e reluzente.
-Adeus Eclesio - Disse ele. O cajado emitiu um intenso brilho acinzentado. De repente, Eclesio soltou um berro ediondo, enquanto do nada sua cabeça começou a girar por cima de seu pescoço, com ruido de trituraçao. Um segundo depois, sua voz silenciara, e seu corpo ja sem vida, ferido e sujo, descançou no chao lamacento da floresta.
- Homens...- murmurou Melvin, enquanto guardava o cajado, que parara de brilhar, dentro das vestes. Por um momento apenas, ele contemplou o corpo caido, entao puxou seu relogio brilhante de dentro do bolso, colocou o cachimbo novamente na boca e, dando longas baforadas esverdeadas, se embrenhou mais uma vez floresta a dentro.
{andre}
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
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ora deh, que orgulho \O/ adoooOorei a historia
ResponderExcluir;*
- Homens...
ResponderExcluirEsse final ficou show!
A parte em que Melvin e Eclesio conversam ficou bacana. Conseguisse transportar o leitor para a cena. Parecia que eu estava do ladinho dos dois!
Esse conto ficou com um gostinho de quero mais! Então, trate logo de continuar a história. :)
by {joão}